A verdade sobre ser multitarefa: pode diminuir sua produtividade

Vamos falar neste post de um dos maiores mitos da produtividade: ser multitarefa. Ou seja, fazer duas ou mais coisas ao mesmo tempo. Você e praticamente todas as pessoas que você conhece devem ser assim. Eu também sou (embora esteja tentando deixar de ser). A sociedade hoje parece acreditar que é preciso ser multitarefa, e mais, que isso é um sinal de produtividade.

Mas, surpreendentemente, ser multitarefa pode ser justamente o responsável pela sua baixa produtividade. E não sou eu que estou dizendo. Existem vários estudos científicos que mostram isso. Existem depoimentos de pessoas que testaram deixar de fazer várias tarefas ao mesmo tempo e viram um aumento incrível de produtividade, além de diminuição do estresse.

Não acredita que ser multitarefa pode prejudicar sua produtividade? Vamos então conhecer a história do Peter Bregman, que escreveu um artigo falando sobre isso.

Peter começa contando uma situação que aconteceu com ele e que é bem comum. Tenho certeza que você vai reconhecer e talvez até já tenha passado por algo parecido. Peter estava em uma reunião e decidiu enviar um e-mail para um cliente. Só que ele teve que enviar o mesmo e-mail três vezes: na primeira se esqueceu de enviar um importante arquivo em anexo e na segunda enviou o anexo errado. Após finalmente ter conseguido mandar o e-mail da forma certa, percebeu que deixou de responder uma pergunta que tinha sido feita a ele por alguém que também participava da reunião.

Todos nós já passamos por situações assim e certamente tivemos resultados parecidos. Isso acontece porque, na realidade, nosso cérebro NÃO é multitarefa. Quando dizemos que estamos fazendo duas coisas ao mesmo tempo, na verdade estamos revezando entre uma tarefa e outra. Nosso cérebro é fisicamente incapaz de processar duas tarefas ao mesmo tempo. Então o que acontece quando estamos prestando atenção em uma reunião e tentando enviar um e-mail simultaneamente é que nosso cérebro alterna entre prestar atenção na reunião e prestar atenção ao e-mail. Isso é muito ruim por alguns motivos:

  • Primeiro: não estamos dedicando a devida atenção a nenhuma das duas atividades. Portanto, temos mais chance de cometer erros e perder coisas importantes, pois nossa atenção não está totalmente focada como deveria.
  • Ao se forçar a se concentrar em duas coisas ao mesmo tempo, estamos sobrecarregando nosso cérebro, justamente porque ele não consegue focar em duas coisas ao mesmo tempo. Vamos ficando cada vez mais distraídos e com maior dificuldade de concentração. Isso porque “ensinamos” nosso cérebro a não se focar 100% em nada, porque sempre tem alguma outra coisa acontecendo que também precisa de atenção.
  • Quando interrompemos uma tarefa, interrompemos também o raciocínio relacionado a ela. Ao voltarmos a tarefa, levamos um certo tempo para retomar o fluxo de pensamento, para encontrar o “fio da meada”. Imagine então ficar o tempo todo tendo que retomar o raciocínio por estar continuamente pulando entre uma tarefa e outra. Você pode pensar que esse tempo perdido não é importante por ser muito pequeno, mas imagine isso se repetindo várias e várias vezes ao longo do dia.

Na realidade, essa conclusão científica de que o cérebro não consegue realizar ao mesmo tempo duas atividades que requerem nossa atenção é a justificativa por trás da proibição de usar o celular enquanto dirigimos. Quando usamos o celular desviamos parte da nossa atenção da direção, mesmo sem querer, porque é assim que o cérebro funciona. E essa distração quando estamos dirigindo pode causar acidentes.

O professor Earl Miller, neurocientista do Massachusetts Institute of Technology (MIT) é um dos principais estudiosos desse assunto. Ele fez diversos testes de escaneamento cerebral, observando o funcionamento do cérebro de várias pessoas enquanto elas tentavam realizar mais de uma atividade complexa ao mesmo tempo. Essa observação permitiu concluir que realmente o cérebro não processa duas atividades ao mesmo tempo, ao contrário, ele tropeça atrapalhadamente entre elas. E o esforço para fazer isso exige muito mais do cérebro do que é saudável. Isso pode até causar problemas como estresse crônico e raiva em adultos e dificuldade de aprendizagem em  crianças.

Estudos na área de psicologia mostraram que além de afetar a clareza mental, ser multitarefa também nos torna menos eficiente. Um teste simples comprovou isso. Alguns estudantes foram convidados a resolver problemas matemáticos e o tempo gasto foi contabilizado. Quando esses mesmos estudantes tinham que realizar outras tarefas enquanto resolviam os problemas, eles foram 40% mais lentos.

Isso sem falar dos efeitos físicos negativos: essa sobrecarga do cérebro ao tentar realizar várias atividades causou uma liberação de hormônios de estresse e adrenalina. Assim está criado um círculo vicioso: trabalhamos arduamente em várias tarefas ao mesmo tempo – levamos mais tempo –  ficamos mais estressados e preocupados –  nos obrigamos a ser multitarefa.

Esse aumento do estresse pode se tornar crônico, com aumentos permanentes da produção de cortisol (hormônio do estresse), o que pode levar a problemas como aumento de peso, lapsos de memórias, risco de doença cardiovascular, dentre vários outros. Além disso, a presença de maior quantidade de cortisol causa uma maior tendência para ser agressivo e impulsivo.

Ok, a questão agora é: então porque insistimos em ser multitarefa? Bem, não há uma única resposta.

Para começar, vivemos em um mundo onde tudo acontece rápido demais, e de certa forma nosso cérebro está condicionado a também funcionar assim. Tudo é urgente, tudo tem pressa, tudo tem que ser pra ontem, não temos tempo a perder. Assim, queremos aproveitar o tempo enquanto estamos “só” ouvindo alguém falar em uma reunião para enviar um e-mail.  O problema é que nosso cérebro tem uma capacidade limitada de atenção que podemos dedicar a realização de tarefas. Quando fazemos mais de uma coisa ao mesmo tempo, não aumentamos nossa capacidade de atenção, porque isso não é possível. Ao contrário, dividimos a atenção entre as tarefas, de forma que nenhuma delas recebe atenção necessária e acabamos por cometer erros, nos distrair e perder coisas importantes.

Outro ponto é que nosso cérebro nos engana para pensarmos que ser multitarefa é bom. Ele nos faz pensar que ser multitarefa é ser eficiente, o que nos traz uma falsa satisfação, porque na realidade não estamos sendo eficientes. Além disso, ao tentar realizar atividades simultâneas é liberada dopamina no organismo, o chamado hormônio da felicidade, o que faz com que o centro de recompensas do cérebro seja satisfeito.

Isso explica também porque muita gente diz que consegue sim ser multitarefa e que é mais produtivo trabalhando assim. Earl Miller, o cientista mencionado lá em cima, contesta isso, de uma forma um pouco polêmica. Ele diz: “ Se você acha que consegue fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, você está se iludindo, pois o cérebro é muito bom em iludir a si mesmo.”

Apesar disso, se você realmente se sente bem sendo multitarefa, talvez você seja o que a ciência chama de “supertasker”. Supertaskers são aquelas pessoas que realmente são capazes de executar mais de uma atividade ao mesmo tempo. Mas atenção: apenas de 2,5 a 3 % da população mundial se enquadra nessa definição.

Claro que estamos falando aqui de tarefas que requerem atenção e concentração e não de tarefas automáticas. É o caso por exemplo de ouvir música enquanto fazemos outra coisa. Ouvir música é automático, não precisamos dedicar atenção para isso. Nesse caso, não tem problema algum.

Tudo bem, então como fazer para deixar de ser multitarefa? Pode não ser tão fácil, porque somos condicionados a isso tanto pela sociedade, quanto pelo nosso próprio cérebro. Vamos ver algumas dicas:

  • O mais lógico: evite as interrupções. Bloqueie as coisas que mais tiram sua atenção e interrompem suas tarefas. Pode ser o Facebook, mensagens no Whatsapp, a caixa de e-mail, telefonemas. Esses são os ladrões de tempo e uma das maiores dicas para aumentar sua produtividade é evitá-los ao máximo. Essa dica, inclusive está no e-book que eu disponibilizei (13 Dicas Simples para Aumentar sua Produtividade – Clique para baixar). 
  • Evitar as interrupções é relativamente simples, mas e quando a dificuldade é realmente focar e se concentrar em uma única tarefa? Como “obrigar” nosso cérebro a focar só no que estamos fazendo naquele momento? Uma ideia é estipular prazos apertados. Por exemplo, você precisa escrever um texto e acha que vai levar uma hora para fazer. Então, determine um período de tempo de apenas 30 minutos para realizar essa atividade. Se você só tem 30 minutos para fazer uma tarefa que acha que precisa de uma hora, você vai mesmo parar para escrever um e-mail que pode ser deixado para mais tarde?
  • Aprenda técnicas que te ajudem a melhorar seu foco e adote comportamentos que facilitem manter sua concentração: organize e planeje suas atividades, defina suas prioridades, tente a técnica Pomodoro, use a regra dos cinco minutos. Eu falo um pouco de cada uma dessas técnicas no e-book 13 Dicas Simples para Aumentar sua Produtividade. Ser focado e se manter concentrado tem muito também de prática e hábito. Acostume e treine seu cérebro a ser assim.

No final das contas, como quase tudo o que se refere a produtividade, você tem que testar e ver qual técnica e qual dica funciona melhor para você. E se mesmo depois de ler esse post, você ainda acredita que pode ser sim multitarefa, faça o teste! Fique uma semana sem fazer tarefas simultâneas, se dedique a fazer uma coisa por vez, e veja qual o resultado.

Sabe o Peter, o cara todo atrapalhado com os e-mails, que eu citei no começo do post? Então, ele testou por uma semana deixar de ser multitarefa, e descobriu que foi uma semana mais prazerosa, onde ele teve maior progresso em seus projetos, além de menos estresse e mais paciência e dedicação. Teste você também! Quem sabe não é isso que você está precisando para melhorar significativamente sua produtividade?

Até mais,

Juliana Sales

 

18 comentários sobre “A verdade sobre ser multitarefa: pode diminuir sua produtividade

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