Efeito Zeigarnik: o que é e como afeta a sua produtividade

O post de hoje é sobre um processo cognitivo estudado pela psicóloga russa Bluma Zeigarnik, de onde vem esse nome meio estranho. Apesar do nome, trata-se de um mecanismo mental extremamente simples, com o qual todos convivemos diariamente. Eu diria, inclusive, que existe uma grande possibilidade de este efeito estar agindo sobre você exatamente agora ou, ao menos, você o sentirá ao final do seu dia de trabalho/estudo.

Falando de forma simples, o efeito Zeigarnik nada mais é que aquela sensação incômoda que nos perturba quando temos alguma coisa inacabada, qualquer tarefa ou atividade. Aquele sentimento de culpa quando começamos algo e não terminamos. Vamos supor, por exemplo, que você tem um relatório para revisar. Mas, cansado e com dificuldade de focar, tirou uns minutos de descanso e veio para internet e está nesse exato momento lendo esse post. Se você é como a maioria das pessoas é bem provável que uma “voz” esteja falando na sua cabeça: “você tem que terminar a revisão do relatório”. Isso é o efeito Zeigarnik acontecendo.

Segundo os estudos de Bluma Zeigarnik, todos nós ficamos tensos quando temos algo que precisa ser feito e ainda não o fizemos. Essa tensão, essa sensação incômoda é a responsável por não nos permitir esquecer que temos alguma coisa pendente, algo que tem que ser finalizado. E esse sentimento só vai embora quando concluímos a tarefa.

Alguns estudiosos acreditam que o simples fato de planejar o que faremos para concluir a  tarefa inacabada já seria suficiente para eliminar ou ao menos minimizar o efeito Zeigarnik. Ao montar um plano, definir qual o próximo passo a ser feito para concluir a tarefa, como e quando ele será feito, proporcionamos ao cérebro a impressão de que a tarefa não está inacabada, mas estamos trabalhando nela. Estudos apontam que o planejamento pode eliminar os efeitos cognitivos dos objetivos não cumpridos.  Isso só reforça a importância do planejamento para quem quer se manter produtivo.

Curiosamente, alguns pesquisadores acreditam que esse efeito é a explicação de porque  determinados jogos  são quase viciantes, a ponto de querermos jogar o tempo todo. Tom Stafford, professor de psicologia e ciências cognitivas  da Universidade de Sheffield acredita que este é o mecanismo por trás do famoso jogo Candy Crush. Para Stafford, o jogo gera a sensação de “tarefa incompleta”, onde cada nível representa uma tarefa que o jogador sente urgência de resolver. O problema é que existe uma quantidade limitada de tentativas (as vidas) e quando elas acabam é preciso esperar um certo período de tempo para voltar a jogar. Esse momento em que se fica esperando representa, para o seu cérebro, que existe uma tarefa não concluída que você precisa completar.

home office

Fonte: foto de rawpixel.com em Unsplash

Apesar da tensão e de certo incômodo que o efeito Zeigarnik traz, até certo ponto ele é desejável. Ninguém quer esquecer que deixou uma tarefa importante pela metade. Essa sensação ruim de quando temos algo não terminado nos incentiva a continuar em frente e fazer as coisas que precisamos fazer. Se ela não existisse talvez você não se incomodasse tanto ao deixar pra terminar depois a leitura de um livro para uma prova, por exemplo. Ou então você poderia facilmente esquecer algum alimento no fogo. Ter nossa mente nos lembrando das coisas que começamos e não terminamos é essencial em diversos aspectos.

Entretanto, o problema é que nosso cérebro não consegue entender que muitas vezes não concluímos determinadas tarefas por motivos válidos. Imagine que seu chefe te pediu para entrar em contato com determinado cliente por qualquer razão que seja. Você tentou se comunicar com o tal cliente o dia todo, mas sem sucesso. Após o expediente, quando você vai pra casa, não consegue relaxar porque aquela tarefa incompleta (falar com o cliente) ativa o efeito Zeigarnik. O cérebro não consegue entender que ele não precisa ficar o tempo todo te lembrando que aquela tarefa está inacabada porque enquanto você está em casa ou mesmo quando vai se deitar para dormir, simplesmente não é possível fazer nada para concluir aquela tarefa.

Para quem conhece um pouco do método GTD pode-se fazer uma relação do efeito Zeigarnik com o que David Allen chama de “veios abertos”. Em seu livro, veios abertos são definidos como qualquer coisa que atraia sua atenção mas você não pode fazer nada a respeito no momento, seja porque não tem as ferramentas, não está no local adequado ou qualquer outro motivo.

David Allen afirma também que muitas vezes esses veios abertos são inconscientes, e isso pode ser entendido em dois sentidos: as vezes nos preocupamos com coisas que acreditamos que devemos fazer, mas esse dever é subconsciente, ou seja, não é de fato uma tarefa ou obrigação que assumimos mas apenas alguma coisa que achamos que deveríamos fazer. Por outro lado, muitas vezes a preocupação é inconsciente: ficamos com a sensação de tensão, temos insônia, e talvez não consigamos entender o motivo.

Veja o exemplo que eu usei antes, do contato que você precisava fazer com o tal cliente e não conseguiu. Claro que, quando você está em sua casa tentando dormir, você sabe conscientemente que não há nada que você possa fazer no momento para concluir essa tarefa e talvez nem esteja de fato pensando nela.  Mas no seu subconsciente o seu cérebro provavelmente está remoendo aquela tarefa incompleta por causa do efeito Zeigarnik.

Como minimizar então a ação desse efeito Zeigarnik? Eu já disse por aqui várias vezes que nosso cérebro não foi feito para ficar nos lembrando o tempo todo das coisas que precisamos fazer. Esse é um esforço mental desnecessário, um  gasto da energia que poderíamos estar usando para atividades mais úteis, tais como aprendizado, resolução de problemas, criatividade. Além disso, essa situação atrapalha também nossa concentração, uma vez que não conseguimos focar adequadamente em determinada tarefa porque nossa mente fica o tempo todo lembrando as coisas que precisamos fazer e ainda não terminamos.

anotacoes papel caneta

Fonte: foto de Green Chameleon em Unsplash

O truque então é dar ao cérebro a sensação que ele quer: de tarefa concluída. Existem várias forma de se fazer isso e o uso do método GTD talvez seja uma das mais eficientes. Isso porque os princípios do GTD objetivam alcançar o estado de mente “clara como água”, no qual estamos totalmente focados no que estamos fazendo no momento. Não há distrações, estresse ou outras preocupações e lidamos de forma adequada com quaisquer imprevistos. Nos sentimos altamente produtivos.

Na prática, o que dá ao cérebro a impressão de que algo está terminado é transferir para outro lugar a tarefa de lembrar das coisas que precisamos fazer. Aqui estou falando do uso da caixa de entrada: anote sempre tudo o que você precisa fazer. Anote seus compromissos, pendências, obrigações.

O segundo passo é tornar sua caixa de entrada confiável. Isso é feito ao se adquirir o hábito tanto de anotar tudo quanto de verificar e revisar com frequência o que foi anotado. Não adianta anotar e deixar pra lá. Isso não vai funcionar porque as coisas vão continuar não sendo concluídas e o cérebro vai continuar se ocupando delas e colocando em ação o efeito Zeigarnik.

Para finalizar, é importante entender que o efeito Zeigarnik não é totalmente prejudicial à produtividade. Ele pode até mesmo ser um aliado, quando usado para combater um dos maiores vilões para quem quer se manter produtivo: a procrastinação.

Já existe um post aqui no blog com várias dicar para fugir da procrastinação. Uma delas é dar o primeiro passo, apenas começar uma tarefa que você está procrastinando. Isso porque muitas vezes o estresse e ansiedade de começar algo é o que nos atrapalha a de fato começar e dar primeiro passo pode ajudar a romper o estado de inércia em que nos encontramos.

Mas o efeito Zeigarnik também pode nos ajudar nesse sentido, uma vez que, ao começarmos a tarefa ele entra em ação se ela for interrompida e não finalizada. Claro que isso deve ser gerenciado com cuidado, mas muitas vezes um tarefa simples, que adiamos por motivo nenhum, apenas por preguiça ou falta de motivação, será mais facilmente concluída apenas se começarmos e deixamos o efeito Zeigarnik agir.

Quis falar sobre esse assunto aqui no blog porque é um processo que todos nós enfrentamos no dia a dia e entender como ele funciona, como lidar com ele e como transformá-lo em algo positivo é um conhecimento importante para melhorar nossa produtividade.

Dúvidas, opiniões e sugestões, os comentários estão abertos, como sempre.

Até mais,

Juliana Sales

 

 

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10 comentários sobre “Efeito Zeigarnik: o que é e como afeta a sua produtividade

  1. Mulher, que post maravilhoso. Eu nunca tinha ouvido falar desse efeito de Zeigarnik mais eu passo por isso direto. Aquela sensação de ter algo que não foi terminado e acabar não conseguindo fazer outras coisas. Vou pesquisar mais sobre isso . Obrigada por compartilhar! 🙂

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  2. Olá!
    Primeiramente parabéns pela pesquisa bem densa que você fez acerca do tema. Achei seu post muito informativo e extremamente complexo. Também gostei bastante da forma de utilizar o efeito para melhorar a organização e vou tentar aplicá-lo assim que possível!

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  3. Nossa eu acho que eu tenho Efeito Zeigarnik, Fico igual ao seu exemplo! O post está muito bem feito,
    Parabéns pela postagem! vou procurar a saber mas sobre o assunto já salvei seu post minhas amigas!
    bjúús

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  4. Que texto maravilhoso e explicativo, nunca tinha ouvido falar nesse nome, mas como você mesma disse a gente faz isso todo dia, após ler seu texto a gente reflete acerca dos nossos atos e mostra que muitas vezes fazemos coisas erradas ou deixamos de fazer algo muito importante consciente dos nossos atos e de como eles podem nos afetar.

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  5. Acho que aprendi a dar ao meu cérebro sensação de tarefa concluída antes mesmo de saber da existência desse efeito. Antes eu ficava muito frustada com não conseguir terminar algumas tarefas, hoje em dia sempre digo e repito para mim mesma: fiz o melhor que deu, ta tudo bem! O resto eu vejo amanha”, me ajudou muito a diminuir o stresse.

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  6. Confesso que fiquei incomodada com o vosso post, mas eu explico. Sempre fui muito organizada. Tinha mania de rascunhos e aproveitava as aulas vagas para colocar tudo em ordem. Tinha planejamentos semanais, mas nada que me ocupasse muito ou pouco. Apenas o que saberia ser capaz de cumprir. Mas quando não conseguia, não me irritava. Respirava fundo e tentava entender o que houve de errado. Como sempre me organizava de maneira a deixar um dia em que em, caso de atraso, pudesse cumprir. Opa. Tudo certo.
    Nunca curti jogos como candycrush. Para ser sincera, todos os jogos do tempo do facebook me irritam de maneira impressionante. Essas coisas de montar, plantar me faz bufar. Nunca os joguei. Aqueles das cidades tentei por duas horas e me aborreci. Adorava o meu atari e o meu nintendo. Os jogos de desafios eram os meus favoritos. Mas nunca me viciei. Joguei muito river raid, enduro e donkey kong, além de outros. Adorava pimball e fui a loucura quando ganhei uma máquina em meu aniversário. Ela ainda está no porão da casa onde cresci. rs
    Mas me cansei de tudo isso… sempre preferia o caderno e os livros.
    Acho que sou meio estranha. Meio = para não dizer totalmente. rs
    kkkkkkkkk

    Ps. mas eu adorei o post, para variar e fiquei impressionada por ainda não seguir o seu blogue, uma vez que é wordpress, como o meu. Erro corrigido nessa visita.

    bacio e boa semana

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  7. Olá!!
    Nunca tinha ouvido falar nesse efeito, achei seu texto exemplar e muito elucidativo.
    No meu dia a dia normalmente não sito esse efeito, pois mesmo que a tarefa não seja concluída no dia eu coloco ela como ok para aquele dia e acrescento ela pra dar continuidade na agenda do dia seguinte,
    Eu realmente sito esse efeito quando na verdade tenho que fazer algo no dia seguinte e tenho um horário ou é uma tarefa muito grande que preciso começar e terminar no mesmo dia. Nesses casos nem consigo dormir bem a noite, Quanto ao candy crush…bem eu era viciada hahahaha hoje não jogo mais, mas ainda não consegui desinstalar do celular 😛
    Beijos

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  8. Oi Juliana!
    Cada vez que venho aqui é um texto devorado! ahaha Adoro muito!
    Eu tô impressionada como eu fui identificando alguns problemas meus durante o texto, e, ao mesmo tempo vendo que de outros não sofro tanto.
    Às vezes me pego deitada na cama pensando nas tarefas que tenho que fazer no trabalho, e olha que essas eu costumo organizar bem, mas sempre tem aquele dia que sai um pouco do previsto. Vou tentar organizar melhor pra ver se consigo desligar melhor desses detalhes que ainda me pegam.
    Na vida cotidiana, sempre que me organizo, anoto e vou conferindo as pendências, tudo é melhor, o rendimento, a organização, a conclusão das tarefas. Sem anotar quantidades impossíveis para apenas um dia, distribuindo melhor e organizando, tudo flui da maneira mais adequada.
    Jogos do tipo Candy Crush eu passo longe, não tenho paciência pra eles de jeito nenhum, detesto… kkk Nos meus primórdios de vida da Facebook ainda me aventurei com alguns, mas depois tudo perdeu a graça e acho tudo mais do mesmo… rsrsrs
    xoxo

    Curtido por 1 pessoa

  9. […] Efeito Zeigarnik: o que é e como afeta a sua produtividade O efeito Zeigarnik é  um mecanismo mental extremamente simples, com o qual todos convivemos diariamente. Nada mais é que aquela sensação incômoda que nos perturba quando temos alguma coisa inacabada, qualquer tarefa ou atividade. Aquele sentimento de culpa quando começamos algo e não terminamos. Essa sensação pode afetar muito a nossa produtividade e o post fala sobre como minimizá-la e até mesmo como usá-la em nosso benefício. […]

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