Fadiga de decisão: o que é e como interfere na sua produtividade

Eu sempre acreditei que produtividade tem mais a ver com o estado mental do que qualquer outra coisa. Claro que técnicas e metodologias são muito importantes e ajudam muito a melhorar a forma como lidamos com nossas tarefas e obrigações, nossas metas e objetivos. Mas de nada adianta usar qualquer método se a mente não ajuda. É impossível ser produtivo quando estamos mentalmente cansados.

E são vários os fatores que nos causam cansaço mental. Um deles, que acontece com muita frequência e nós não percebemos ou sequer sabemos que existe, é a chamada fadiga de decisão. O surgimento do termo “decision fatigue” (ou fadiga de decisão) é atribuído ao psicólogo social Roy Baumeister, pesquisador da Florida State University e coautor do livro Força de vontade – a redescoberta do poder humano.

Existem vários estudos sobre esse fenômeno e um dos mais conhecidos envolveu a análise das decisões tomadas por juízes sobre conceder ou não liberdade condicional à prisioneiros. Surpreendentemente, os pesquisadores observaram que o que mais interfere na decisão do juiz não são as condições do crime, o comportamento do preso ou algo similar. Foi identificado um padrão mostrando que os juízes tomavam mais decisões favoráveis (à concessão da condicional) pela manhã ou logo após o almoço. Ao final do dia as chances da decisão ser favorável eram praticamente nulas.

Essa situação pode ser explicada pela tal da fadiga de decisão. Mas o que exatamente é isso? Em termos simples, fadiga de decisão se refere à queda da qualidade das nossas decisões após um sequência de várias decisões tomadas. É a explicação para várias situações comuns do dia a dia, como compras por impulso ou uma irritação sem motivo com um colega de trabalho. Quanto mais decisões você tomar pior ficará sua capacidade de analisar sua opções e decidir de forma correta.

Veja bem, nós tomamos decisões o tempo todo (Essa reportagem aponta que um americano comum toma até 35.000 decisões por dia) . Desde as grandes e importantes até as microdecisões. E aqui entram decisões que nós tomamos e nem percebemos, tais como o que comer no café da manhã e qual roupa vestir. Parece bobo, mas a realidade é que cada ação nossa é resultado de uma decisão mental, mesmo que não percebamos isso. Nosso cérebro faz uma rápida análise e toma um decisão toda vez que você resolve responder primeiro o e-mail de fulano do que o do sicrano. Toda vez que você determina quais e-mails podem ser ignorados e quais devem ser respondidos. Até mesmo quando você resiste à tentação de dar uma olhadinha nas redes sociais e foca em trabalhar no relatório que precisa terminar.

O problema é que todas essas decisões tomadas ao longo de um dia acabam por deixar o cérebro cansado. Tomar uma decisão atrás da outra tende a nos deixar entediados e irritados a tal ponto que até a menor tarefa parece exigir um esforço extremo. E é daí que vem as decisões “erradas”, as decisões ruins que tomamos e não entendemos porque. E isso incluí desde, por exemplo, fechar um arquivo sem salvar depois de um longo dia de trabalho até aceitar alguma tarefa que normalmente não aceitaríamos.

Pesquisas apontam que isso acontece porque nossa capacidade de tomar decisões está diretamente relacionada à nossa força de vontade (mais do que um conceito abstrato, é uma forma de energia mental) . E a força de vontade, por incrível que pareça, funciona mais ou menos como um músculo. Se você exercita demais um músculo ele fica cansado: o mesmo acontece com nossa força de vontade. Por isso no fim do dia é mais provável que você ceda a vontade de procrastinar no Facebook do que terminar sua planilha. É por isso também que, depois do trabalho, você pode acabar desistindo de ir à academia. Você pode até ter tido a melhor das intenções no começo do dia, mas com o passar das horas à sua força de vontade se esgotou.

Foto de Charles Koh em Unsplash

A cada decisão (grande ou pequena, importante ou não) que tomamos, a nossa “reserva” de força de vontade diminui um pouco. E essa diminuição faz com que o cérebro busque formas de minimizar o esforço, escolhendo os caminhos mais fáceis. Isso ocorre de duas formas: tomando atitudes imprudentes (agir impulsivamente sem parar para pensar nas consequências) ou evitando tomar decisões (simplesmente não fazer nada, não fazer nenhuma escolha).

Por isso ocorrem as decisões equivocadas. Por isso fica mais difícil resistir a vontade de procrastinar ou a qualquer outra tentação (comer um doce, ficar em casa em vez de ir à academia, assistir uma série em vez de estudar). Claro que existe aí também um componente real de cansaço físico, mas o cansaço mental é muitas vezes o problema principal.

Não preciso nem dizer que um cérebro exausto e a tomada de decisões equivocadas são fatores que interferem negativamente na nossa produtividade. Como escapar então da fadiga da decisão? A resposta pode parecer óbvia: minimizando o número de decisões que tomamos. Mas isso não é tão simples como parece. A seguir eu listei algumas dicas para controlar essa situação.

Simplifique sua vida

Se não podemos evitar tomar as decisões, podemos criar mecanismos para que algumas delas se tornem automatizadas a tal ponto que se tornem hábitos (tem post aqui no blog onde eu falo do livro o poder do hábito e sobre como criar hábitos produtivos).

Um jeito simples de fazer isso é criar rotinas. Tendo pré determinado o que precisa ser feito ao longo do dia e em qual horário, evitamos tomar uma série de decisões sobre o que precisamos fazer. Não precisa ser nada rígido, apenas um guia para te ajudar a fazer suas tarefas sem ficar tendo que decidir a cada momento o que precisa ser feito.

Outra coisa que ajuda é o planejamento. Quem costuma acompanhar o blog sabe que eu falo muito sobre esse assunto. Planejamento é algo que eu faço frequentemente, seja planejar minhas tarefas da semana, as metas do mês, os meus planos de longo prazo. Já tem post por aqui falando sobre a importância do planejamento mensal/semanal/diário. Mas planejar não precisa ser só sobre suas tarefas. Você pode usar o fim de semana para planejar um cardápio semanal, por exemplo.

Planejamento e rotina andam lado a lado quando se fala em otimizar nossas ações e melhorar o uso do tempo. E essa também é uma dupla que se torna uma grande aliada no combate à fadiga de decisão

Algo que também ajuda nesse sentido de simplificar é diminuir as suas opções. Sim, porque quanto maior a possibilidade de escolha mais difícil a decisão. Isso também tem muito a ver com a síndrome da fadiga de informação. Muitos apontam que minimizar as escolhas e driblar a fadiga de decisão é a explicação do porque Steve Jobs estava sempre de preto ou porque Mark Zuckerberg parece estar sempre com a mesma camiseta. Se você só tem peças parecidas, não há muito o que decidir na hora de escolher o que vestir.

Foto de rawpixel em Unsplash

Tome as decisões mais importantes primeiro

Isso é bem óbvio, certo? Se você sabe que precisa tomar uma decisão importante ou se tem uma tarefa mais difícil que exige grande força de vontade para se concentrar e executar, programe-se para que tais atividades sejam feitas logo no começo do seu dia de trabalho. Ou, ao menos, após um período de descanso.

Claro que para isso você precisa ter um mínimo de planejamento para saber com antecedência quais atividades você precisa fazer no dia e se existe ou não algo importante que requer sua atenção. Organize sua agenda para que seus principais projetos e sua decisões mais importantes sejam concluídas antes das outras tarefas.

Aqui também vale a dica de evitar tomar decisões significativas quando se sentir cansado, desmotivado ou com baixa energia.

Faça pausas

É importante saber a hora de parar, de fazer um intervalo. Muitas pessoas confundem estar ocupado com ser produtivo e por isso pensam que fazer uma pausa é inaceitável enquanto ainda há trabalho a ser feito. Isso está completamente equivocado. É fundamental dar um descanso, tanto para o corpo quanto para a mente.

As mais diversas técnicas de produtividade, incluindo o famoso método Pomodoro, reforçam a importância de fazer pausas e descansar. Aqui também vale falar sobre a importância de dormir bem e uma quantidade suficiente de horas. Sua produtividade não vai melhorar sacrificando suas horas de sono. Há inclusive quem defenda que o famoso cochilo depois de almoço pode ser uma ótima forma de melhorar a produtividade, funcionando como uma limpeza mental (o que é explicado pela housekeeping theory – teoria da limpeza).

O conceito da fadiga de decisão é algo que conseguimos nos identificar com facilidade. Porque é algo que realmente acontece no nosso dia a dia e basta alguém chamar nossa atenção para isso que percebemos diversos momento em que fomos vítimas dessa situação. Você já se sentiu mentalmente cansado ao ponto de não conseguir tomar uma decisão? Ou já tomou decisões que depois não conseguiu entender porque? Me contem nos comentários!

Até mais,

Juliana Sales

2 comentários sobre “Fadiga de decisão: o que é e como interfere na sua produtividade

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