Um olhar diferente sobre a procrastinação

Semana passada eu falei aqui no blog sobre como uma busca exagerada pela produtividade pode ser prejudicial, principalmente se você entende produtividade como sinônimo de alta performance, ou seja, trabalhar cada vez mais, estar o tempo todo ocupado. Eu falei naquele post e vou repetir sempre que puder que o conceito de produtividade que eu que eu quero passar aqui não é esse. O que eu quero compartilhar é uma ideia de produtividade mais real e mais saudável.

Seguindo essa linha, hoje quero falar de outro assunto que eu já tratei algumas vezes aqui no blog,  a procrastinação. Eu já dei dicas para se livrar dela e também já contei como eu faço para sair dessa situação. Mas hoje quero abordar um ponto de vista diferente. O senso comum diz que a procrastinação é um dos maiores vilões da produtividade, o que faz total sentido, visto que adiar as coisas que precisamos fazer certamente é algo improdutivo. Isso porque todos nós temos em nossa lista de tarefas coisas que realmente devem ser feitas e quanto mais adiamos sua realização, mais estresse e maior chance de alguma coisa dar muito errado, especialmente se estamos procrastinando algo realmente importante.

Porém, lendo e estudando sobre o assunto, como faço rotineiramente, me deparei com dois termos: produtividade estruturada e produtividade criativa. Ambos não tem o mesmo significado mas sua essência é parecida: ao invés de lutar contra a procrastinação, abraçá-la e tentar transformá-la em um aliado.

Enquanto a procrastinação estruturada fala de organizar suas tarefas de forma a fazer alguma tarefa importante mesmo quando se está procrastinando, a procrastinação criativa tem certa relação com o ócio criativo, no sentido de que muitas vezes é necessária uma pausa, um descanso, para conseguirmos depois executar melhor nossas tarefas, ter mais energia e encontrar soluções criativas e diferenciadas.

Os dois conceitos me parecem interessantes. Por um lado, procrastinação não é necessariamente ficar sem fazer nada. Muitas vezes procrastinadores são pessoas que estão sempre fazendo alguma coisa, menos o que realmente importa. Procrastinadores do tipo construtivo tendem a fazer qualquer tarefa que os permita adiar a tarefa que realmente não querem fazer. Por outro lado eu sempre reforcei aqui a necessidade de pausas e descanso para que o trabalho flua de forma melhor. Muitas vezes o melhor que podemos fazer pela nossa produtividade é procrastinar um pouquinho.

mesa notebook livro caderno flores

Foto de Karolina Grabowska em Kaboompics

A procrastinação estruturada é um conceito defendido por John Perry, um professor de Stanford. O que ele argumenta é que, segundo suas próprias palavras “a lista de tarefas que você tem em mente será ordenada por importância. Tarefas que parecem mais urgentes e importantes estão no topo. Mas também existem tarefas que valem a pena ser executadas mais abaixo na lista. A realização dessas tarefas se torna uma maneira de não fazer as coisas mais importantes da lista. Com esse tipo de estrutura de tarefas apropriada, o procrastinador se torna um cidadão útil. De fato, o procrastinador pode até adquirir, como eu, uma reputação de fazer muito.”

Em resumo, o segredo é colocar no topo da sua lista de tarefas coisas que aparentemente são importantes, mas na realidade não são ou que parecem ter prazos definidos, mas na verdade não tem. Assim, as tarefas do topo da lista só serão realizadas quando elas se tornarem de fato importantes ou com prazos reais, e assim saírem do topo da lista sendo substituídas por outras tarefas do tipo “parecem mas não são”. No final das contas você está procrastinando tarefas que podem ser procrastinadas.

John Perry afirma ainda que essa técnica é uma forma de auto engano e é justamente por isso que ela funciona, uma vez que procrastinadores são especialistas em se auto enganar (vai me dizer que quando você adia um tarefa dizendo que há tempo suficiente, quando na realidade, não há, você não está se auto enganando?).

Outra dica para usar a procrastinação a nosso favor é ter uma lista de coisas que você precisa fazer em algum momento, que não são urgentes nem importantes, mas uma hora ou outra você terá que fazer. Essas tarefas devem ser curtas, rápidas e requerer baixo nível de energia. A ideia é recorrer a essa lista quando a procrastinação estiver em um nível mais pesado. Por que, por mais que você esteja procrastinando em relação há algo importante que precisa ser feito, ao menos você está fazendo algo que já precisaria mesmo fazer em algum momento.

David Allen, em seu livro sobre o GTD, fala sobre sempre ter a mão uma lista de coisas que precisam ser feitas, mas que requerem muito pouca energia mental ou criativa, para serem feitas quando você estiver com o nível de energia baixo. A ideia é a mesma. Quer um exemplo dessa situação? Já aconteceu de você se sentar para fazer alguma tarefa no computador mas acabar organizando sua área de trabalho ou fazendo uma limpeza na sua mesa? É isso, você está procrastinando, mas ainda está trabalhando em alguma coisa.

planner calendario caneta

Foto de Karolina Grabowska em Kaboompics

Claro que não dá para adiar algo indefinidamente e nem ficar fazendo isso o tempo todo. Essas são aquelas pausas indispensáveis, aqueles momentos de descanso necessários para recarregar a mente e a energia. Por isso, escolha tarefas curtas e rápidas, para não estender muito seu momento procrastinador.

Mais uma ideia é pegar a tarefa principal que você está procrastinando e quebrá-las em tantas tarefas menores quanto for possível. Uma tarefa grande pode ser tornar 20 ou 30 tarefas menores e mais administráveis. Pode parecer que seu trabalho aumentou, mas é só uma impressão. Tudo que você listou, todas essas pequenas tarefas, já precisariam ser feitas e talvez sua percepção inconsciente dessa grande quantidade de tarefas fosse o responsável pela sua procrastinação, porque criavam a sensação de que você não daria conta de tudo.

Porém, ao quebrar em tarefas mais simples e rápidas, você pode fazer apenas uma delas e já sentirá que não está mais procrastinando porque você está de fato trabalhando na sua tarefa maior, mesmo que em uma pequena parte dela. E ao perceber que você dá conta, que você conclui aquela pequena parte, fica mais fácil seguir em frente e fazer mais pequenas tarefas. E se não ficar, você ainda pode alternar entre essas tarefas e aquelas que requerem menor energias.

Me contem, como vocês lidam com a procrastinação? Eu acho que o ponto principal (como eu já disse por aqui outras vezes) é entender porque você procrastina e lidar diretamente com causa, até porque muitas vezes a coisa vai além de simplesmente adiar tarefas e pode até representar um problema mais profundo. Mas acho que as dicas desse post podem funcionar também, principalmente se você está procrastinando por preguiça ou cansaço. Até porque, procrastinar só um pouquinho de vez em quando não é tão problemático assim.

Até mais,

Juliana Sales

5 comentários sobre “Um olhar diferente sobre a procrastinação

  1. Oi, Ju! Como vai? Esse assunto me chama muito a atenção justamente pelo fato de eu lutar contra a procrastinação (acho que vez ou outra falo isso aqui!). Mas acho que já melhorei muito! Eu costumo sim anotar, semanal ou diariamente, as minhas tarefas, e tem me ajudado muito. Entretanto, tento não pirar quando não consigo cumprir tudo que me predisponho a fazer. Ultimamente tenho andado muito cansada, e nem tenho feito listinhas nas últimas semanas, mBjsas estou seguindo!

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    • Ás vezes parece que é uma luta que não acaba nunca, né Ana Claudia? Mas é o que eu falei, as vezes o melhor é parar de lutar e abraçar a procrastinação, lidar com ela de forma mais leve, tentando entender o porque acontece em vez de ficar só brigando contra. E eu fico feliz que você tenha percebido melhoras nesse aspecto!

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