Perfeccionismo e Produtividade

Eu contei aqui algumas vezes que já há muitos anos eu leio e pesquiso sobre produtividade. Começou muito por conta de uma necessidade diária, de conseguir ter tempo para fazer tudo que eu precisava fazer. Isso já faz vários anos e naquele momento o conceito de produtividade estava ainda muito entrelaçado à ideia conseguir fazer mais coisas. Hoje essa noção, felizmente, tem mudado e se fala cada vez mais do conceito de produtividade que eu defendo aqui: não é fazer mais coisas, é fazer as coisas certas e de forma eficiente.

Mesmo naquela época, quando eu buscava “melhorar minha produtividade”, o que eu desejava não era fazer mais coisas e sim dar conta de todas as coisas que tinha que fazer e ainda ter tempo livre para fazer as coisas que eu gostava. E eu comecei esse blog muito com esse conceito em mente, de compartilhar técnicas de organização e produtividade para que as pessoas conseguissem usar melhor o seu tempo.

Mas, como é comum, quanto mais a gente lê e estuda sobre um assunto, mais informação a gente agrega, e mais vamos complementando nossa forma de pensar. E o meu conceito principal de produtividade ainda é esse, fazer de forma eficiente as coisas que você precisa, para ter tempo para fazer as coisas que você não precisa, mas quer fazer, porque te fazem bem e te deixam feliz.

O meu conceito de produtividade, porém, tem outras nuances que só de um tempo pra cá eu venho percebendo. Eu falei um pouco sobre isso no post que discute a ideia de que você precisa acordar cedo para ser produtivo. Nesse post eu questiono se produtividade é sinônimo de alta performance. Essa é uma associação que eu não faço porque a produtividade que eu busco não está atrelada a resultados espetaculares e metas astronômicas nem a trabalhar obsessivamente, sacrificando sono, alimentação e tempo com família e amigos.

janela mesa notebook luminaria oculos plantinhas

Foto de Daan Stevens em Unsplash

Eu entendo quem pensa assim e também quem vive fases assim, situações pontuais, mas não é algo que eu quero pra minha vida e nem é a abordagem que pratico aqui no blog. Lembrando que eu sempre defendo que não existe certo e errado nesse contexto de produtividade, porque cada um sabe da sua realidade.

A questão é que essa associação de produtividade e alta performance pode levar a situações de estresse, de cobrança excessiva, ansiedade e até, como eu disse, problemas de saúde e sacrifícios pessoais. Essa associação está também muito relacionada ao perfeccionismo que, vejam só, pode ser um dos maiores inimigos da produtividade quando se mostra como uma das causas mais comuns da procrastinação.

Quando alguém se cobra muito a perfeição, acaba por ficar paralisado em muitos aspectos. Pode deixar de iniciar um projeto por achar que não está na situação ideal ou não tem os recursos ideais; pode adiar uma simples tarefa porque não se sente capaz o suficiente de executá-la. E pode até ter recursos e se sentir capaz, mas temer não atingir exatamente o resultado esperado e, menos que isso, menos que a perfeição, já soa como fracasso. A busca pela perfeição se reflete também na dificuldade de delegar tarefas, pelo medo de que os outros não busquem um resultado tão perfeito quanto o que você idealiza. Então, a pessoa centraliza, toma para si todas as tarefas e acaba ficando sobrecarregada e prejudicando sua própria busca pela produtividade.

Em outro sentido, quem busca excessivamente a perfeição tende a pensar que precisa ser 100% produtivo e o tempo todo organizado.  E é óbvio que isso não existe. Ninguém consegue ser produtivo o tempo todo, ao menos não sem prejudicar a si próprio a longo prazo. Por isso eu não gosto dessa relação de produtividade e alta performance, essa cobrança para trabalhar incessantemente para atingir o topo, para ser o maior e o melhor.

xicara mesa cadeira

Foto de karl chor em Unsplash

Claro que todo mundo deve correr atrás de seus sonhos e metas e também deve estar sempre buscando melhorar em todos os sentidos. O que eu estou dizendo é que é preciso equilíbrio, bom senso. Trabalhe muito para alcançar seus sonhos, mas tenha tempo para estar com seus amigos e família. Busque ser cada dia melhor, mas sem sacrificar nenhum aspecto da sua vida por isso. Alguns psicólogos defendem que a razão por trás do  perfeccionismo muitas vezes não é a intenção de buscar o melhor resultado possível e sim um medo exagerado de falhar.

Percebem o que eu quero dizer? A ideia de produtividade que eu compartilho é algo mais leve. É algo para fazer bem, tornar a vida mais tranquila e com mais significado. E acho importante falar disso agora também porque vejo muita gente buscando aprender mais sobre organização e planejamento nesse período de isolamento social. Ou então se cobrando uma super produtividade, querendo ter um excelente rendimento no trabalho, fazer 10 cursos online, 3 tipos de atividade física e ainda se dedicar a 5 hobbies diferentes, tudo ao mesmo tempo.

E tudo bem fazer isso se você se sente bem assim. A discussão toda é essa: se sentir bem. Não se cobre por não dar conta de tudo ou por se sentir desanimada às vezes ou por querer passar um dia todo na cama assistindo séries. Buscar ser mais produtivo é ótimo, mas isso não deve ser uma obrigação, um peso. Não queira fazer algo só porque (parece) que todo mundo está fazendo. E não compare a realidade do outro com a sua. Procure ser mais produtivo (ou não) porque você quer, por que te faz bem. E isso vale em qualquer circunstância e em qualquer ocasião, não só agora.

Agora, conta para mim nos comentários: você alguma vez já sentiu o peso da cobrança de ser mais produtivo, seja vindo dos outros ou de si mesmo? A minha resposta para lidar com isso é transformar a ideia de produtividade, entendo-a como um caminho para alcançar resultados sem precisar se sobrecarregar ou se sacrificar para isso. O que você acha?

Até mais,

Juliana Sales

22 comentários sobre “Perfeccionismo e Produtividade

  1. Muitos confundem o conceito de produtividade. E não acho que produtividade esteja obrigatoriamente ligado ao conceito de perfeição. Até porque o que é perfeito para mim pode não ser para o outro…Cobranças estão de todos os lados…Filha, marido, amigos, chefe, todos se acham no direito de cobrar…Respiro fundo e tento encontrar o meu “tempo”, não me permito ser mais uma a cobrar…E ai entra a tão falada organização, listar o que deve ser executado, dar prioridade e fazer as coisas em excelência…E sempre ter o seu tempo, um tempo só seu…
    Bjs

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    • Isso mesmo, tudo está relacionado. A busca pela perfeição gera essa cobrança excessiva, que mina nossa produtividade. A partir do momento que nos livramos dessa cobrança e começamos a organizar as coisas, tudo começa a fluir melhor.

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  2. “…o que eu desejava não era fazer mais coisas e sim dar conta de todas as coisas que tinha que fazer e ainda ter tempo livre para fazer as coisas que eu gostava”. Ey exatamente isso que desejo para mim e concordo plenamente com você o fato de não sermos tão perfeccionista, pois isso pode nos fazer procrastinar muitos projetos e nos deixarmos doentes. Eu faço o que preciso e me deixa feliz, não tento fazer para aparecer ou sobressair, querendo mostrar que sou melhor que os outros. Faço as coisas para minha satisfação pessoal.

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  3. Já me senti assim e quase sempre vindo de mim, sou uma pessoa que se cobra muito ( cada vez menos rs). Concordo plenamente com essa coisa de qualidade antes da quantidade e acredito que o bem estar é determinante na produtividade e até na vida em geral. Post muito interessante, é bom pensar que nem sempre produzir muito é saudável.

    Abraço

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  4. Eu quero fazer um desabafo com a sua pergunta: a todo momento sou cobrada a ser produtiva e também perfeccionista, todos os detalhes certos e tudo encaixado. Então, confesso que produtividade tem, por vezes, um pensamento negativo no meio.
    Mas gostei muito da sua forma de ver produtividade, ela é mais leve e, se bobear, rende mais produção.

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    • Acredito que essa cobrança que você sente é muito comum, Camille. Diversos pesquisadores tem estudado sobre como a cultura da produtividade, especialmente no trabalho, mas também na vida em geral, pode ser prejudicial quando se torna essa cobrança que você falou. E é também por isso que eu tento falar sobre uma produtividade menos dura, menos pesada., mais saudável.

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  5. Muito embora eu seja a rainha do caos (não tanto mais depois de começar a aplicar algumas das suas dicas), tenho um outro lado de me cobrar muito sim. Tem um trecho do teu texto que me chamou a atenção “Alguns psicólogos defendem que a razão por trás do perfeccionismo muitas vezes não é a intenção de buscar o melhor resultado possível e sim um medo exagerado de falhar.” – No meu caso, o perfeccionismo em alguns aspectos não era medo de falhar, mas uma forma de compensar outros campos que eu não me sentia tão segura, por exemplo, na infância/adolescência, eu era a nerd mais chata da turma, aquela criança sabe-tudo chata pra caramba, sempre com as notas mais altas, sempre isolada dos outros. Lembro que várias vezes pensei “não sou bonita, nem legal, nem popular, se eu não for a mais inteligente, o que serei?”. Foi um perfeccionismo que me ajudou em alguns aspectos mas hoje sinto que prejudicou a forma como interajo com as pessoas. Hoje tento me cobrar menos, mas ainda tenho meus momentos complicados hehe

    Abraços

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    • Muito interessante esse ponto que você levantou Darlene. Realmente não tinha pensado por esse lado, a busca pela perfeição pode ser mesmo uma forma de compensação ou mesmo de auto afirmação, eu acho. Mas é tudo uma questão de equilíbrio. Penso que a busca da perfeição não pode nunca é se tornar algo idealizado, uma perfeição irreal porque nesse caso sim, só traz complicações.

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      • Foi um ponto que só cheguei a perceber quando, na faculdade, odiando profundamente o curso e querendo distância da maioria das pessoas, me via ainda assim, desejando ser a melhor em todas as matérias, tirando as maiores notas da sala sem sentir nenhum prazer nisso, além do prazer insano da auto afirmação. Tenho trabalhado isso, pra não cair mais nessas armadilhas.
        Abraços!

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  6. Eu queria muito ser perfeccionista ao extremo antigamente. Ainda bem que, hoje em dia, eu percebo o quão difícil seria pra mim lidar com isso. Amo organização, acho isso uma característica linda nas pessoas e em mim mesmo ❤❤❤❤

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    • A perfeição enquanto busca de um ideal inatingível é difícil mesmo Matheus, além de muito prejudicial à saúde mental e à vida como um todo. Organização é amor ❤

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  7. Acredito que todo mundo já teve essa cobrança de ser “mais produtivo” em alguma fase da vida, em maior ou menor grau. Acho que a maturidade permite entender melhor quais são as reais necessidades de cada um, que estar sempre ocupado não é sinônimo de ser produtivo, afinal somos todos humanos, fazer atividades em excesso pode levar tanto à exaustão mental quanto física.

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    • Exatamente isso Patrícia, todos temos fases assim, às vezes achamos que está tudo sob controle e ela aparece de novo. Mas só essa percepção já ajuda muito a escapar disso.

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  8. Eu gosto de organização mas eu tenho que aprender que organização não é perfeição. As vezes isso me atrapalha muito e me deixa ansioso. 😦

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  9. Oi Juliana, buongiorno.
    Li e re-li… e pensei tantas coisas. Enfim… me lembrei que a palavra disciplina sempre esteve presente em meu vocabulário e a consciência de que a palavra requer estrutura e ritmo me deixou sem ar. Como organizar-me nesse sentido. A noção que eu tinha de organização era para outra realidade, mais comum. Eram movimentos do mundo e eu só precisava me misturar. A realidade da Arte é outra. É apenas minha e não há exemplo que sirva. O tempo da escrita é próprio, o do corpo-matéria. É preciso disciplina, mas de que tipo? Como se organizar? Onde? Como? Quando?
    Encontrei resposta no caos… precisei abandonar tudo que sabia e me entregar a bagunça, a desordem para encontrar-me enquanto pessoa que escreve. Não foi nada fácil. O rompimento de padrões, do que era certo e já estava estabelecido. Mas, hoje, ao espiar tudo isso, vejo que foi interessante o processo para compreender-me. Praticamente voltei a condição inicial e fui revisitando tudo, com outros olhos.
    Não gosto de perfeição, mas é interessante flertar com este símbolo. Mas, é na imperfeição que reside o artístico. Nas coisas que ficam pelo caminho, em estado de abandono.
    Hoje, eu tenho uma rotina, como receita de bolo (já até escrevi sobre isso depois de sair de um de seus posts) porque sempre reclamava da rotina até ler algo aqui e percebi que eu tinha rotinas. Aliás, que esse tempo de quarentena veio esfarelar. E como foi dificil me reorganizar a partir desse ficar em casa. rs

    bacio
    grazie mais uma vez por esse refletir.

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    • Lunna, seus comentários por aqui vira e mexe exemplificam algo que eu sempre digo, que é a questão de não ter certo e errado na organização. Me baseando no que você já comentou por aqui e no que já conversamos tenho a percepção de que você é sim organizada, do seu jeito, para fazer as suas coisas funcionarem. E fico muito feliz toda vez que você diz que o que eu escrevo te trouxe noções novas sobre os temas que eu abordo aqui.

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  10. Esse post me pegou de uma forma muito doida, porque é exatamente assim que eu sou: perfeccionista, mas que não consegue fazer um monte de coisa justamente por achar que nada vai ficar perfeito da forma como imagino. Então eu acabo não fazendo nada ou procrastinando. Fico bem frustrada com isso às vezes, e já tratei disso na terapia diversas vezes. Tento não me cobrar para ser sempre produtiva, mas tenho que parar de me cobrar quanto a fazer tudo de uma forma perfeita, pois meu medo de falhar sempre foi o que me limitou em muitas coisas.
    No mais, eu amo seus posts e as reflexões que você faz!

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    • Eu era muito assim há uns 3 ou 4 anos atrás. Por isso eu falo muito com conhecimento de causa sobre esse perfeccionismo que paralisa. Para você ter uma ideia, entre ter a ideia de escrever esse blog e colocar em prática foram vários meses e para deixar tudo pronto para ir ao ar mais alguns meses. Foi mais de um ano até a ideia sair de fato do papel, e olha que era só um hobbie e, portanto, sem grandes responsabilidades. Às vezes eu ainda tenho que lidar com isso, mas só de conseguir perceber quando acontece já ajuda a controlar.

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