A Arte da Procrastinação, John Perry

Hoje vamos falar sobre uma dica de leitura rápida e fácil, porque é um livro de poucas páginas e escrito em tom bem informal. Trata-se de A Arte da Procrastinação, de John Perry. Eu já falei sobre esse livro no post sobre procrastinação estruturada, porque o conceito vem justamente dessa obra. Aliás, o livro o desenvolve e detalha. A ideia defendida por John Perry, autor do livro, é que procrastinar não é necessariamente ficar sem fazer nada porque muitas vezes procrastinadores são pessoas que estão sempre fazendo alguma coisa, menos o que realmente importa.

E eu concordo em partes com essa ideia porque, assim como existem diferentes causas para a procrastinação, também existem diferentes tipos de procrastinadores. E determinado tipo realmente se caracteriza por estar sempre fazendo alguma coisa, embora as coisas mais importantes fiquem para depois. E nesse caso essa ideia de “estruturar” a procrastinação pode sim funcionar.

Como eu disse no começo é um livro curto e fácil de ler, fiz a leitura em um único dia. São oito capítulos no total, mais uma pequena introdução e um curto apêndice. Vamos ver um pouco mais sobre o conteúdo.

Na introdução, John Perry conta rapidamente que sempre foi um procrastinador e que se sentia mal por isso. No entanto, curiosamente, ele tinha a reputação de ser alguém que fazia muitas coisas e contribuía muito para seu ambiente profissional. Foi aí que ele percebeu que procrastinava as tarefas importantes fazendo diversas outras coisas. E isso o ajudou a não se sentir tão mal ao estar procrastinando. E ele percebeu também que se organizasse as tarefas de uma determinada maneira, conseguiria contornar a tendência de deixar as coisas mais importantes sempre para depois. Então ele escreveu um artigo sobre isso, que na realidade é o primeiro capítulo do livro.

Com o passar do tempo (e após adiar inúmeras vezes) ele decidiu expandir o conceito de procrastinação estruturada no que ele chama de “programa de autoajuda filosófico para procrastinadores deprimidos”, sendo incentivado por inúmeros feedbacks de pessoas que leram o artigo e se identificaram.

notebook caneta lista tarefas projetos

Foto de Markus Winkler em Unsplash

O capítulo 1, então, explica o conceito de procrastinação estruturada: organizar a sua lista de tarefas de forma a explorar o fato de que procrastinadores podem se sentir motivados a fazer qualquer tipo de tarefa difícil ou importante desde que isso seja um motivo para adiar outras tarefas supostamente mais importantes.  A ideia geral é que procrastinadores tendem a adiar sempre as tarefas que parecem mais prioritárias, aquelas do topo da lista. Então organize sua lista de forma que o que for importante pareça não ser e o que não for, pareça ser. Soa com uma ideia boba, não? Mas John Perry afirma que funciona porque é uma forma de auto enganação, algo em que os procrastinadores são especialistas.

Ele deixa claro, no entanto, que isso não funciona para todo tipo de procrastinador, mas apenas para o que ele chama de procrastinadores construtivos: aqueles que deixam de fazer algo não para ficar à toa ou fazer coisas inúteis, mas para fazer outras tarefas, também úteis e até necessárias, mas nem um pouco importantes ou urgentes.

É interessante como ele contraria algo que eu considero um dos pontos básicos da produtividade: identificar suas prioridades e focar nelas. Perry argumenta que, se um procrastinador estiver diante de uma lista de tarefas curta e com poucas tarefas importantes, o impulso intrínseco de procrastinar o levará a não fazer nada, porque não existem tarefas menos importantes para funcionar como válvula de escape.

Ao contrário, se você tem uma grande lista de tarefas e coloca no topo aquelas que “parecem ter prazos claros (mas realmente não é assim) e que parecem incrivelmente importantes (mas realmente não são)” a procrastinação naturalmente te levará a escolher outras tarefas na intenção de adiar aquelas que estão no topo. É aí que você consegue executar as tarefas de fato importantes. É de se duvidar? Sim. Mas se faz sentido para você, experimente, e depois me conte se funcionou. Em produtividade só podemos julgar alguma metodologia após colocá-la em prática.

O capítulo 2 fala da relação entre produtividade e perfeccionismo, assunto de um post que publiquei recentemente. Quando escrevi o post ainda não tinha lido o livro, mas o que eu disse nele espelha o que é apresentado nesse capítulo. Ele levanta um questionamento sobre como o perfeccionismo que leva a procrastinação é fantasioso. Isso porque a pessoa está idealizando a perfeição e não trabalhando para alcançá-la. Como eu disse no meu post é um perfeccionismo que paralisa e não que motiva a agir e buscar fazer o seu melhor. O perfeccionismo da procrastinação é aquele em que a pessoa se imagina fazendo o melhor trabalho do mundo, algo nunca antes feito na história da humanidade com tamanha perfeição. E essa fantasia faz com que a execução de fato seja sempre adiada, ou pelo medo do fracasso ao não atingir o idealizado, ou por buscar as condições/recursos perfeitos para começar e se perder nessa busca sem nunca iniciar realmente o trabalho a ser feito.

O segredo para lidar com isso é entender que melhor que um trabalho “grandioso e incomparável”, mas nunca concluído ou feito às pressas, é um trabalho “perfeitamente aceitável” ou “satisfatoriamente bom”. É aquele velho clichê de que feito é melhor que o perfeito não feito. Claro que isso não significa desleixo e nem não tentar fazer sempre o melhor possível.

caderno lapis planta em uma mesa

Foto de Jen Theodore em Unsplash

O capítulo 3 traz algumas dicas para ajudar sua lista de tarefas a funcionar, baseadas na ideia de que tal lista não precisa ser algo para te lembrar do que deve ser feito e sim para te dar a sensação de dever cumprido ao riscar tarefas já feitas. A recomendação é colocar tarefas simples e bobas porque o simples ato de marcar uma tarefa como concluída é um impulso para continuar trabalhando e riscando mais tarefas. Também é uma boa ideia colocar na lista coisas para não fazer, por exemplo, “não entrar nas redes sociais”. Aqui é falado ainda para se dividir uma tarefa grande e complexa em tarefas menores e mais simples.

No quarto capítulo é falado sobre usar música animadas para fazer algumas tarefas mais chatas e também se indica começar o dia com uma playlist animada, para ter mais disposição. Para mim esse foi o capítulo com menor relevância. O capitulo 5, em contrapartida, fala de algo importante: o quanto o computador (o acesso a internet, na realidade) está estreitamente ligado à procrastinação. Aqui, é dito que o e-mail e a navegação na internet em geral são os maiores problemas, por serem uma forma fácil e tentadora de perder tempo.

O capitulo 6 trata de como as forma usuais de organização podem não favorecer quem já tem tendência a procrastinar, tentando apresentar uma solução para isso. O capitulo 7 traz uma dica preciosa: estar sempre em contato com não procrastinadores. Buscar trabalhar com pessoas realizadoras é eficiente porque elas estão sempre agindo, executando e assim acabam por “arrastar” junto o procrastinador.

Os capítulos 8 e 9 finalizam com algumas reflexões importantes. A primeira é que, embora a ideia do livro (e da procrastinação estruturada) seja fazer com que os procrastinadores não se culpem tanto e não se sintam tão mal, deve-se ter em mente que, apesar de procrastinar às vezes até ter alguns benefícios (como ensinar a delegar tarefas), isso nunca será uma virtude. E a segunda fala que embora um procrastinador possa conseguir aprender a usar a procrastinação a seu favor, ele deve sempre estar atento para não prejudicar e atrapalhar outras pessoas.

Concluindo, o capítulo 10 é uma retomada e uma reafirmação das ideias apresentadas na introdução. E indica alguns artigos, livros, sites (a serem lidos ou não) que trazem contribuições para o tema.

De forma geral é uma leitura fácil e que traz uma nova forma de enxergar e lidar com a procrastinação. Alguém por aí já leu?

Até mais,

Juliana Sales

19 comentários sobre “A Arte da Procrastinação, John Perry

  1. Eu conhecia esse termo abordado no livro como “procrastinação ativa”, coisa que por sinal sou profissional hahaha. Sempre estou fazendo alguma coisa, mas tem horas que eu estou fazendo e ao mesmo tempo não estou fazendo nada que é realmente necessário. Acho que todos os estudantes passam por isso em alguns dias.
    Fiquei interessada no livro, pois é legal pensar que alguém se dedicou a escrever e a pesquisar sobre o assunto. 🙂
    Seu artigo, novamente, está muito completinho e bem estruturado.

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    • Procrastinação ativa define muito bem mesmo, Luana! E sim, o livro é legal, e é muito bom ter pesquisas sobre isso porque as pessoas tendem a associar procrastinação com preguiça e nem sempre é assim.

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  2. Eu ainda não li, mas já ouvi falar da obra. Me pareceu uma leitura bem rica no tema, mesmo sendo curtinho.
    Principalmente o capítulo 5 que fala sobre o tempo gasto na internet, eu já senti isso na pele e resolvi mudar e foi uma das melhores coisas que fiz.
    Geralmente não deixo as coisas mais importantes para depois, pelo contrário, eu prefiro executá-las antes das menos importantes, isso me deixa mais tranquila.
    Como sempre, post perfeito! bjs

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  3. Interessante o livro. O capítulo 4 me interessou, principalmente por eu ser o tipo de pessoa que ouve música praticamente o tempo todo (ou pelo menos o tempo que eu posso usar para ouvir) e nunca havia colocado um paralelo entre tipo de música vs tarefa, vou observar como isso auxilia ou atrapalha meu desempenho heheh

    Abraços

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    • Darlene, eu também ouço música sempre e de quase todo tipo. E observa essa relação sim. Eu, por exemplo, para cálculos e planilhas ouço músicas mais animadas, já pra escrever gosto de ouvir música clássica.

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  4. Olá!
    Eu acho os seus posts sempre muito intertessantes e me mostram o quanto eu sou desorganizada e improdutiva – muito embora cê já tenha dito que depende do que vemos como produtividade, né. Esse livro parece ser muito bom e uma referência incrível para aprendermos. Aliás, eu preciso muito ler o quinto capítulo – o uso excessivo da internet realmente afeta e me faz procrastinar, cansei de rolar feed, muito embora tivesse muita coisa pra fazer.

    Adorei o seu post!

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  5. Nossa, não imaginava que haveria um livro sobre esse assunto. Anotei o nome para futuramente ler e confesso que depois que comecei a frequentar seu blog, dei uma ajeitada na minha vida e não estou procrastinando com tanta intensidade que fazia antes, dei uma boa melhorada.

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  6. Menina, eu AMEI todo o conteúdo desse livro só pelo que li aqui. Muitas vezes eu sou desse tipo que adia as tarefas mais importantes e faz outras no lugar. Também concordo que a sensação de riscar uma tarefa e marcar como concluída é sensacional! Eu sempre separo minhas tarefas em mini tarefas, porque aí qualquer coisinha que eu faço eu vou riscando – e fico mais feliz e com mais vontade de cumprir o resto.

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  7. Muito interessante a temática do livro, afinal é importante também falar sobre a procrastinação e tentar encontrar formas de contorná-la, muitas pessoas sofrem com esse hábito e não sabem por onde começar para mudar. Fiquei atenta com o capítulo 7, realmente faz sentido ter companhias que agregem, no caso pessoas produtivas, já é meio caminho para procrastinador se animar e tentar seguir também.

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  8. Olá cara mia, boa noite.
    Li o post duas vezes, mas confesso que foi difícil me manter atenta ao conteúdo. Comecei a pensar no que não fiz na semana passada e no quanto isso me tirou a paz. Eu tenho horror a palavra procrastinar desde os tempos colegiais que a galera deixava para estudar no último segundo das provas semestrais.
    Eu sou aquela que se fizer uma checklist só vai ter paz quando concluir todos os itens… aliás, algo que não aconteceu na semana passada, por motivos pessoais. E já estou de péssimo humor nessa semana.
    Pela manhã, tentei organizar tudo… os itens dessa semana, misturados ao da semana anterior. Odeio fazer isso. Mas, é o que deu para fazer … então vai ter que render por essa e pela outra.
    Pior é que em dois dias eu começo a organizar o mês seguinte… posso gritar? Claro que não.
    Vamos de exercícios de respiração e foco.
    Eu tenho dormido muito nessa quarentena. Até no meio do dia, sinto sono. A psico disse que é normal-natural. É um caminho que meu corpo encontrou para lidar com a questão do momento. Não sei. Nunca fui de dormir… sempre gostei da noite, desse horário mais calmo e tranquilo.
    Enfim… será que procrastinar é uma boa coisa? Deve ser… com certeza, mas não para mim.

    bacio

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    • Procrastinação também me incomoda, Lunna, mais ainda quando eu me pego nessa situação. E aí, temos que tentar lidar com isso da melhor forma, como você descreveu. E essa questão do sono, por aqui também estou assim, e olha que eu já durmo bastante, mas tenho sentido mais sono que o normal.

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      • Eu não sei procrastinar, minha cara. Deveria aprender para evitar transtornos… mas acho que estou um bocadito velha para isso.
        Há acontecimentos que nos atropelam… ainda mais nesse tempo de vírus e mortes e enganos…
        Enfim, vida que segue… vamos caminhar.
        Ah, preciso voltar aqui para ler o texto de novo. Estou com dificuldade de concentração e detesto quando leio algo e o pensamento foge para outras direções. Ainda que sejam coisas próximas a leitura ou conduzidas por ela.

        bacio

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  9. Esse livro foi feito para mim! Eu tendo muito a procrastinar perdida na internet mesmo por não conseguir organizar meus pensamentos e elencar minhas tarefas. Não é fácil admitir isso, me dói até porque sei o quanto estou agindo errado, mas acho que essa autoidentificação já é um início para reconhecer o erro e tentar mudar.

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    • Acho que seria uma boa leitura pra você, então. Incomoda mesmo é o primeiro passo, além de reconhecer, e evitar se sentir culpado por isso, porque a culpa só faz com que nos sintamos pior.

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