Sobre a relação vida pessoal e vida profissional

Qualquer pessoa que começa a aprender sobre produtividade ou organização, cedo ou tarde vai se deparar com o dilema de como equilibrar vida pessoal e vida profissional. E esse é de fato um problema comum porque nos dias de hoje existe uma supervalorização do trabalho, no sentido de que descansar parece ser algo errado, inapropriado ou desnecessário.

Eu já falei algumas vezes por aqui sobre a importância de se valorizar o descanso, é esse é um aspecto da dificuldade em alcançar o tão falado equilíbrio, já que o lado profissional tende a ser considerado mais importante que o lado pessoal. Acrescente a isso o fato de estarmos o tempo todo conectados, o que acaba por gerar uma dificuldade de desconectar do trabalho mesmo após o fim do expediente.

Além dessa pressão da sociedade que parece exigir de todos alta performance e sucesso estrondoso em tudo,  há muitas vezes a pressão individual de cada trabalho/chefe, que quer sempre disponibilidade total, impondo cada vez mais demandas e responsabilidades. E ceder à pressão, ceder mais tempo e concordar com essa situação pode representar também uma esperança de promoção, com cargos e salários melhores.

E quando se fala de trabalho home office, tudo isso pode ficar ainda mais evidente. Se com a forma tradicional de trabalho muita gente ainda encerra o expediente levando pendências e tarefas para casa, quando trabalhamos em casa pode ficar ainda mais difícil fazer essa distinção entre horário de trabalho e horário fora do trabalho.

E o direcionamento desse post é o excesso de trabalho porque quando se fala em equilíbrio vida pessoal e profissional dificilmente alguém tem problemas por trabalhar “de menos” ou focar mais na vida pessoal do que no trabalho. Não que não exista ou que não aconteça em algumas situações específicas, mas não é o que predomina.

Talvez a pergunta que mais é feita quando se fala de conciliar pessoal x profissional seja no sentido de como separá-las, ou melhor, deve-se separá-las? Quando vamos planejar nosso dia, nossa semana, traçar nossas metas de vida, devemos separar o profissional do profissional? A resposta é sim e não. Calma que eu explico.

bandeja com notebook e uma xicara de chaFoto de Lauren Mancke em Unsplash

Quando falamos de gestão do tempo é essencial fazer essa separação para que as coisas não se sobreponham e para que o trabalho não ocupe tempo que deveria ser gasto com todas as outras atividades que fazem parte de nossas vidas além do trabalho. É o que eu falo no post aqui do blog sobre produtividade e equilíbrio, e é o objetivo que guia a minha busca pessoal por produtividade e que embasa o meu conceito sobre ela. É trabalhar de forma eficiente e gerenciar bem o tempo para fazer o que eu tenho que fazer e o que eu quero fazer.

Nesse sentido acho muito importante, especialmente na hora de planejar o dia ou a semana, separar o tempo de trabalho, tempo de descanso, de lazer, de autocuidado e por aí vai. E separar não é usar ferramentas diferentes (se você quiser ok, mas não acho necessário, e eu particularmente prefiro centralizar). O que eu gosto de fazer é delimitar horários ou dias para cada tipo de atividade, de modo que nem o profissional nem o pessoal fiquem de lado. Claro que não é nada inflexível, assim como qualquer tipo de planejamento não deve ser. E é claro também que podem acontecer momentos em que o trabalho precisa ser prioridade, certas épocas requerem mais atenção, mais dedicação. Então é uma questão de balancear e entender que esses momentos devem ser passageiros, a exceção e não a regra.

O outro lado da moeda é que nossos somos um único indivíduo. Não existe a Juliana, profissional e a Juliana que gosta de fotografar, de conversar com os amigos e adora livros policiais e filmes de suspense. Como indivíduos de muitos lados, acho quase impossível separar as diversas áreas da nossa vida de forma compartimentada. Se temos algum problema muito grande no trabalho certamente carregaremos essa preocupação depois do expediente, assim como problemas pessoais podem afetar nosso desempenho no trabalho. Não temos um botão para desligar uma coisa e ligar outra.

Então, acho que a separação deve ser feita para garantir que nenhuma área fique com tempo insuficiente para realizar as atividades ligadas à ela. Mas não se pode esquecer que é tudo uma coisa só quando falamos das coisas a serem feitas pelo indivíduo. Eu acredito que essa questão de pessoal x profissional é muito uma questão de foco, no sentindo que ambas merecem atenção e todas devem ter um tempo garantido no seu planejamento. Até porque dificilmente elas serão completamente independentes, o que acontece em uma acaba afetando a outra.

Para terminar, me contem: como funciona para vocês essa relação pessoal x profissional? O que eu vejo muito é o trabalho se estender e ocupar horas que deveriam ser dedicadas a outras áreas da vida. Eu como profissional autônoma percebo o privilégio que eu tenho de conseguir administrar minha vida profissional de forma mais flexível, mas sei que o tradicional modelo de trabalho costuma dificultar esse equilíbrio. Se você trabalha assim, me conta como é pra você?

Até mais,

Juliana Sales

7 comentários sobre “Sobre a relação vida pessoal e vida profissional

  1. Obrigado pelo texto! Tirando sua dúvida sobre não ser autônomo… claro que varia muito conforme o segmento de atuação e seu papel na empresa, mas infelizmente acho que cada vez o modelo tradicional precisará ser repensado (ainda mais num cenário majoritariamente de trabalho remoto), ou as empresas estão fadadas ao fracasso ou, pior, as pessoas fadadas a sofrer com problemas de burnout e ansiedade. Passa por muita terapia e um esforço consciente de impor limites (que muitas vezes não são bem percebidos em várias organizações).

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    • Eu concordo muito quando você fiz que esse modelo tradicional precisará ser repensado e torço por isso, pois vejo muita gente submetida a situações nada saudáveis devido aos problemas que você citou e tantos outros. E concordo também que terapia pode ser muito útil para ajudar a lidar melhor com essa questão, principalmente quando as empresas ainda não tem essa visão. Obrigada por comentar!

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  2. Olá cara mia…
    Eu sou super tranquila com as horas do dia. Gosto de caminhar e planejar meus afazeres com calma. Como vivo de projetos, preciso de tempo e espaço para lidar com eles. E, às vezes, preciso não pensar neles. Minha mente também precisa de quietude e silêncio, distração também. Então eu ouço o meu corpo porque se eu travar nada funciona.
    Mas, uma coisa eu sempre soube. Eu não saberia lidar com as obrigações da realidade, trabalhar com ponto ou coisas do tipo. Sou livre e certas rotinas me perturbam. Preciso do meu timing. E não acredito nessa loucura de trabalhar o tempo todo. Aqui em Sampa, vejo que o trabalho esta intimamente ligado ao entretenimento e a cidade busca cada vez mais isso ou buscava, antes da pandemia. Os horários para fugir dos horários cheios e se divertir numa livraria, teatro, cinema ou num café. Ambientes alegres e criativos.
    Mas acho que não é uma rotina para todos porque há muitas pessoas presas (ainda) a velhas idéias e incapazes de sair do velho formato. rs

    bacio

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    • Pelo que eu vejo pessoas com pensamento assim são minoria na sociedade, Lunna. E até acho que muita gente também não gosta do modelo tradicional de trabalho, mas não conseguem ou não sabem fugir dele. Como você disse, estão muito presas a esse modelo, seja por costume ou por falta de opção. Então, por isso eu acho ainda mais importante estar atento a essa questão dos limites.

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  3. Realmente equilibrar esses dois pontos é a minha maior dificuldade! Como professora acabo trazendo muita coisa para casa, não tem como dar o horário e desligar…E os finais de semana idem…Procuro fazer uns horários de “lanche”, pelo menos quinze minutos para não surtar…

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    • Realmente levar trabalho pra casa e nos finais de semana é muito comum e dependendo da profissão parece mesmo ser a regra e não a exceção. Mas eu acho importante sim definir esses limites. Esses intervalos que você faz já são um bom começo.

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  4. Eu sou professora e sempre trago trabalho para casa, o que acaba sendo um problema. É difícil separar a vida pessoal da profissional por aqui, mas sempre uso algumas dicas para não me prejudicar tanto! Tenho buscado fazer o máximo de trabalho possível na escola, e em casa sempre separo um horário específico para trabalhar.

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